Jun 4 / João Nuno Soares

Como Ler Uma Vinheta E Orientar O Pensamento No Desconhecido

Já reparaste que quase todas as vinhetas da PNA seguem a mesma estrutura? Neste artigo vamos em primeiro lugar dissecar a estrutura da PNA e depois abordar técnicas de exame que tiram partido dessa estrutura para teres melhor nota na PNA.

Estrutura de uma vinheta

Uma pergunta da PNA é composta por 4 partes:
  1. Linha inicial: idade, género, etnia, fatores de risco, local da consulta, queixa principal, duração da queixa.
  2. Meio: informação apresentada quase sempre com a seguinte ordem: História pertinente da doença actual, antecedentes pessoais, familiares, sociais, revisão de sistemas, exame físico, exames complementares de diagnóstico, passos iniciais de tratamento e achados subsequentes. 
  3. Linha final: pergunta final ou lead-in.
  4. Alíneas.

Gestão de tempo: dar prioridade ao importante

O tempo é um fator importante diferenciador na PNA.
Muitas vinhetas incluem informação pouco relevante para responder à pergunta corretamente.
O problema é que é impossível saber se uma informação é relevante antes de ler a vinheta e interpretar o seu contexto, não é?
Errado. Uma vinheta bem escrita tem certas pistas garantidas. Não acreditas? Vou te mostrar quais.

4 pistas garantidas em cada vinheta

Prestar atenção à primeira frase

A primeira frase tem a queixa principal que quase sempre define o tema da vinheta. Além disso, as informações adicionais (género, idade, fatores de risco) são geralmente úteis para afunilar o diagnóstico. Desta forma, a informação contida na primeira frase é quase sempre muito relevante.

Exemplos da PNA

“Uma mulher de 36 anos de idade recorre ao serviço de urgência devido a história de cinco dias de dores tipo cólica no quadrante superior direito do abdómen, náuseas e vómitos intermitentes.”

Eu costumava pensar que com esta frase eles queriam dizer exatamente o que estava lá escrito (sem ler nas entrelinhas). Quando comecei a pensar “o que é que eles querem dizer com isto?” notei uma melhoria substancial. Neste caso, uma mulher (female – estrogénio favorece formação de litíase biliar) em idade fértil (fertile) com quase 40 anos (forty) vem com dor abdominal sugestiva de obstrução de víscera oca (dor em cólica) numa região abdominal onde as principais vísceras são o fígado e as vias biliares – será patologia biliar?

“Um homem de 65 anos de idade é internado no hospital devido a perda ponderal de 9 kg e dor nas regiões lombar e epigástrica.”

Neoplasia do Pâncreas?

“Uma mulher de 77 anos de idade é trazida ao serviço de urgência por desenvolvimento súbito de confusão.”

Delirium? Causado por uma infeção como pielonefrite? Por uma causa vascular – AVC, AIT? Por causa medicação – BZD?

“Uma mulher de 28 anos de idade vem a uma consulta no consultório do seu médico assistente devido a perda de peso de 4 kg e sensação de cansaço nos últimos seis meses.”

Mulher em idade fértil (patologia auto-imune?) com sintomas sugestivos de hipertiroidismo (Graves?

Prestar atenção ao lead-in

O lead-in (pergunta final) também tem informação relevante que pode ajudar a afunilar o diagnóstico.

Um lead-in corretamente escrito deve permitir responder sem olhar para as opções, não deve ter rasteiras e NUNCA está escrito na negativa (regras do gold-book do NBME e da PNA).

Exemplos de lead-in: “Qual o diagnóstico mais provável?” “Qual o próximo passo na abordagem?”

Diminuir a velocidade de leitura e ler o enunciado só uma vez

Ler toda a vinheta uma segunda vez prejudica gravemente a gestão de tempo.

Pode não parecer intuitivo, mas ao abrandar a leitura o suficiente para entender tudo à primeira pode na PNA fazer-te ganhar tempo. Praticar vai te fazer ganhar ainda mais tempo.

Evitar ler as alíneas antes da vinheta

Os erros de fixação são erros que ocorrem quando temos demasiada confiança numa resposta cedo demais que ignoramos evidência contra a nossa opção e a favor de outras.

Na minha perspetiva, ler as alíneas antes da vinheta cria a tendência, mesmo que inconscientemente, de fixar o pensamento numa alínea (por ex. a resposta certa de uma pergunta parecida que fizeste recentemente). Assim, o raciocínio torna-se muito mais complexo e enviesado. Desta forma, evito ler as alíneas antes da vinheta.

Este conselho pode ser um pouco controverso para algumas pessoas. No entanto, esta é a minha opinião que no meu caso me ajudou a acertar mais perguntas.

A minha técnica de abordagem

Tendo em conta estes princípios, a minha técnica de abordagem para a generalidade das perguntas é:

  • Primeiro ler a primeira frase. Se não entender bem, leio-a uma segunda vez.
  • De seguida leio o lead-in. Só então leio o meio. Apesar de ler o meio de forma mais rápida que a primeira frase e o lead-in, demoro o tempo necessário para entender bem cada frase à primeira. Desta forma, evito ter que ler a vinheta toda novamente.
  • Posteriormente reflito sobre a questão e antecipo uma resposta.
  • Finalmente, leio as opções para procurar a minha escolha.


Em certas perguntas posso adaptar esta ordem. Contudo, a minha tendência foi claramente seguir esta técnica para a generalidade das perguntas.


Senti melhorias, especialmente nas perguntas mais compridas (muito frequentes na PNA). Desta forma consegui responder de forma mais fácil e rápida.

Não te estou a dizer que faças assim! O meu objetivo é dar-te as ferramentas para que tu com raciocínio crítico possas desenvolver uma técnica adaptada a ti.

Objetivo Educacional

  • Ter uma técnica de abordagem para cada vinheta pode ter um efeito benéfico significativo na nota da PNA.
  • A primeira frase e a última (lead-in) têm quase sempre informação muito relevante.
  • Abrandar a velocidade de leitura pode ajudar a gestão de tempo.
  • A minha técnica é explicada neste artigo.
  • Para aprofundar o teu conhecimento e melhorar ainda mais a tua técnica de exame, convido-te a ler o artigo “Os 5 erros mais frequentes na PNA”.